Apresentação

Rödel LA (para Latin America) é um label de moda criado em 2007, em Porto Alegre, pelo casal Helen Rödel e Guilherme Thofehrn. O espírito, desde o início, foi o “do it yourself”, com ambos unindo suas habilidades a fim de desenvolver a base que melhor apresentasse as criações de Helen.

Sua principal plataforma de trabalho é o crochet, ainda que em sua jovem trajetória a estilista tenha trabalhado também o tricot manual, a malha retilínea, o veludo, o linho, a lã e a cambraia. A escolha da técnica manual, que como conhecemos hoje data do século XVI, tem contribuido para esta aparecer renovada a medida em que Helen propõe a sua visão. Ela aprende com o crochet de ontem mas realiza o crochet de seu tempo, de sua vida e para isso executa um trabalho minusioso em que o acabamento, o perfeito tecimento e a modelagem precisa que garante modelos sem costuras se unem à materiais de alta qualidade e designs com conceitos atemporais, resultando em peças valiosas, extremamente delicadas e inovadoras.

Seus crochets exuberantes e luminosos buscam a história e prestam uma homenagem. “Penso que o crochet é o passado, é agora e o futuro. É uma arte milenar de infinitas possibilidades para qual eu oferto a minha visão. Essa fantástica combinação de uma agulha, fios, mãos e mente presente me encanta sobremaneira e meu esforço em renovar a técnica é, além de realização pessoal e crença, uma vontade sincera de que a técnica se mantenha viva carregando consigo a mudança dos tempos”.

A inovação da forma em seu crochet, tem garantido à Helen destaque em publicações ao redor do mundo e em 2009, à convite da Iceland Fashion Week, a estilista apresentou suas criações na Islândia, ao lado de jovens designers do mundo todo.

Helen e Guilherme em entrevista concedida à Ademir Correa - Revista FFW Mag!

ARTISTICAMENTE, COMO VOCÊS SE DEFINEM?

Somos bastante institivos. Mas a isso aplicamos a melhor técnica de que dispomos. E também somos inquietos e curiosos, e quase que insatisfeitos, algo como não caber em si tamanha a vontade, caminho longo ao oriente. E são tantas as vontades. Fazemos praticamente tudo à quatro mãos. O espírito, desde o início, foi o "do it yourself" mas é transformador dividir a arte entre pessoas que têm gana dela.

E CRIATIVAMENTE, COMO VOCÊS SE DEFINEM?

Livres.

COMO VOCÊS VÊEM A MARCA?

Vemos a marca como vemos a nós. Em tudo o que fizemos estão nossas crenças, o que acreditamos por belo, o nosso belo. Fazemos moda com virtudes universais, no sentido de que somos humanos e que estamos no mundo e que não há fronteiras, sabe, ser terráquio e humano antes de sermos brasileiros, mas cientes de que o Brasil está em nós.
É cristalino em nosso trabalho o trânsito livre entre o meio rural e o urbano. Vivemos na urbe, mas somos naturais, precisamos de campos e florestas. Estas são as nossas máximas. Nos sentimos livres para criar o que pensamos ser o mais belo agora a partir do que está introjetado e transformado em nós, as experienciações cotidianas, como sempre, e também as de natureza divina. É, as criações espelham muito isso, nossas vontades de vida.

PARA VOCÊS, É UMA FUNÇÃO DA ARTE RESSIGNIFICAR O MUNDO EM QUE VIVEMOS?

Cremos que sim, mas isso é instrínseco à arte, não algo que se racionalize, necessariamente. Um artista pensa de dentro para fora, mas dentro está tudo o que está à sua volta, mesmo a suprarealidade, a realidade de sonho.

QUANDO A MODA É ARTE E QUANDO ELA É CONSUMO? OU É IMPOSSÍVEL DISCERNIR?

Não, achamos que é possível discernir, mas muito, também, a partir de perspectivas pessoais. Acreditamos sim, que moda possa ser arte, mas isso está na cabeça de quem faz, na intenção e no trabalho.

POR SER UM TRABALHO PRIMEIRAMENTE MUITO PESSOAL, COMO UM ARTISTA PODE FAZER COM QUE SUA FORMA DE EXPRESSÃO SE COMUNIQUE COM O PÚBLICO?

Para nós os maiores artistas do mundo foram ou são os que exploraram ou exploram o seu âmago, e que são francos também ao fingir, Fernando Pessoa já nos disse isso, e comprovamos. Vasculhe a si para entender o mundo. Há algo de tão sagrado em nós que nos assemelha ao resto do mundo e ao mesmo tempo nos unifica como indivíduos. Acreditamos que já nascemos com todos os sentimentos humanos em nós, e à medida que atravessamos a vida eles vão sendo despertados. Agora, alcançar o sucesso (me refiro a construir algo, se fazer entender e ter relevância no tempo e no espaço) parace estar ligado a fatores que por vezes não estão nas mãos dos artistas.

VOCÊS CONSEGUEM EXPLICAR O MUNDO QUE CRIAM COM SUAS COLEÇÕES? EM UM PRIMEIRO MOMENTO, QUE REFLEXÕES VOCÊS ACREDITAM QUE PROPONHAM ATRAVÉS DA MODA?

Nós valorizamos muito o trabalho artesanal. Trazer o crochet quase como uma bandeira e se propor a dar novas vistas (as nossas vistas) a uma técnica antiga e bastante difundida no Brasil tem sido um desafio estupendo. Disassociar a técnica das velhas escolas do crochet que fazemos é uma das coisas que propomos junto à vontade de valorização da artesã. Outra é algo de forte raiz pagã, é a crença no ser natural, a consciência de onde viemos, para onde vamos e que nos ajuda fortemente a estar no mundo, entendê-lo e a nos relacionarmos com as pessoas.

O ESCRITOR E POETA NORTE-AMERICANO EZRA POUND AFIRMAVA QUE ARTISTAS SÃO A “ANTENA DA RAÇA”, COM A FUNÇÃO DE ANTECIPAR O TEMPO. O QUE ACHA DESSA AFIRMAÇÃO?

Acho-a limitada, a menos que "artistas" abarque sábios, cientistas, religiosos, inquietos, curiosos, sensíveis, amorosos, os pagãos, os loucos e os sãos. As teias do pensamento e da comunicação são tão finas, extensas e onipresentes que não se pode dar o cetro a ninguém, é uma construção da massa. É o ar. Artistas podem ter o poder de tornar público e de dar forma a isso.

A MODA TAMBÉM PODE SER VISTA COMO ALIENAÇÃO? POR QUÊ?

A moda só será alienação se dominar o corpo e a mente da pessoa e se for vista de forma imediata.

A FORMA COMO VOCÊS SE EXPRESSAM TAMBÉM PODE SER CONSIDERADA UMA FUGA DA REALIDADE? POR QUÊ?

Não, porque na fuga se cria uma nova realidade. E realidade, o que é realidade senão toda a tua mente presente (meus caros niilistas), também mãe de toda fantasia? Nossa coleção do inverno de 2008 se chamava Reality Is Forbidden, e essa realidade proibida nada mais era do que despir o corpo e a mente de artifícios e fazê-los confrontar-se com a sua própria verdade, em exercício de criação de uma nova realidade.

COMO PESSOAS QUE LIDAM COM A CRIATIVIDADE, VOCÊS SE CONSIDERAM PORTA-VOZES DESSA ÉPOCA? E DE QUE FORMA DIALOGAM COM ESSE TEMPO?

Claro, somos porta-vozes desta época, sim. Mas isso é tão natural. Somos agora. Dialogamos com esse tempo vivendo-o. Nossas referências podem estar no passado e no futuro, mas o presente é o cume.

SUA ARTE E A FORMA COMO VOCÊS SE EXPRESSAM EXISTIRIAM SEM OS MEIOS VIRTUAIS DE PROPAGAÇÃO DE IDÉIAS E INFORMAÇÕES? POR QUÊ?

Existiram sim. As roupas e as imagens que criamos antecedem a sua comunicação. São algo bastante concreto. Claro, desde o princípio, acreditamos na internet como a ferramenta do século. Ela tanto pode ser um pântano como uma galáxia. Escolhemos pertencer à galáxia e isto nos levou a usá-la da melhor maneira, inclusive criando novas formas de apresentar a Rödel LA, sendo em diálogos com quem se faz presente nesse mundo que nem é mais virtual ou repartindo nosso pão (nossas roupas e o pensamnto por detrás delas) com pessoas que querem recheá-lo com seus sabores (me refiro, por exemplo, ao projeto Flickr Gals, em que convidamos garotas do mundo todo a se retrarem com suas roupas Rödel LA, registrando a diversidade de gostos, belezas e realidades). A internet dilui as fronteiras de território aproximando as culturas, que são irmãs. Isso é fabuloso. Particularmente, não gostamos de fronteiras políticas e essa dificuldade burocrática de transitar pela terra.

OUTROS ARTISTAS MUDARAM SUAS VIDAS, SUAS PERCEPÇÕES DE MUNDO E A FORMA COMO VOCÊS ENCARAM SUA TRAJETÓRIA? E QUEM SÃO ELES?

David Bowie em nome dos espaciais e exatos, Can em nome dos selvagens e primais, Sergei Eisenstein em nome dos dramáticos grandiosos, Jorge Ben em nome das tábuas de esmeraldas, Caetano Veloso em nome das jóias, dos bichos e dos raros, Fellini em nome dos circenses, Geraldo de Barros em nome dos concretos, Rimbaud em nome dos extremados, Cocteau Twins em nome dos etéreos, Surf's up (Beach Boys), Dylan em nome dos geysers, Renan Machado em nome dos apoteóticos, C. Lispector em nome dos herméticos e calados, Maria Bethânia em nome dos cristalinos e místicos, Klimt em nome das mulheres, Monet em nome dos impressionistas.

UMA PESSOA QUE TEM DONS ARTÍSTICOS CLAROS E QUE SE EXPRESSA DE UMA FORMA ARTÍSTICA TEM UM COMPROMISSO DE FAZER SENTIDO AOS OUTROS OU APENAS A SI MESMO?

Ser fiel a si e às suas vontades aproxima o artista das pessoas. Compromisso, não acreditamos nisso. A arte pede ao artista a forma mais pura e bela (a beleza aqui pode tanto ser a insquestionável quanto a contraditória) de seu pensamento. O único compromisso que todo indivíduo tem no mundo é ser cordial, não ter preconceitos, expandir o amor, e ser justo e compreensivo. E ainda abra a paleta de cores de cada um desses conceitos.

COMO REPRESENTAR ANSEIOS ARTÍSTICOS INDIVIDUAIS ATRAVÉS DA MODA?

As possibilidades são infinitas, uma vez que se trabalha com imagens, cores, formas e texturas. Vestir o corpo humano pode ser transcendente.

JÁ EXISTE ESPAÇO NA MODA BRASILEIRA PARA SER AUTORAL?

No Brasil só não é difícil ser brasileiro. Mas também nunca ninguém ousou dizer que viver seria fácil. Pensem no Brasil quando tudo era mata. Como somos de ascendência alemã, conhecemos bem as histórias dos primeiros imigrantes que chegaram aqui e foram engolidos pelo verde e pelo vazio demográfico. Eles abriram picadas nas matas densas e construiram cidades. Vejo assim o trabalho da moda autoral no Brasil, braços fortes, cabeça focada e coração sagrado.